ESTUDANTES REIVINDICAM MUDANÇA DO NOME DA AVENIDA LEOMIL

Alunos da EM Myriam Terezinha querem substituição do nome para Avenida 20 de Novembro - data que é comemorado o 'Dia da Consciência Negra'; motivo deve-se ao fato de que Valêncio Teixeira Leomil enriqueceu com apropriação de terras e comércio de escravos

Alunos do 5º ano da Escola Municipal Professora Myriam Terezinha Wichrowski Millbourn, no Jardim Boa Esperança, vieram nesta quinta-feira (9), à Câmara Municipal, para fazer um pedido inédito ao presidente do legislativo, vereador Edilson Dias. Eles querem que o nome da Av. Leomil (um antigo feitor de escravos que morou na Cidade, no final do século 19), seja substituído para Avenida 20 de Novembro - data que é comemorado o 'Dia da Consciência Negra'.

A mobilização resulta do projeto 'Se Essa Rua Fosse Minha', realizado este ano na escola, onde os alunos pesquisaram a história das personalidades que dão nomes às ruas de Guarujá. Foi daí que a turma descobriu que Valêncio Teixeira Leomil, apesar de ter conseguido a concessão da ligação férrea da Cidade, enriqueceu com apropriação de terras e comércio de escravos, além de ter assassinado um marinheiro inglês.

"Os registros históricos contam que ele foi absolvido no julgamento, mas a comunidade não aceitou o fato, forçando-o o governo a pedir o seu exílio", conta a professora Ademara Aparecida Jesus Santos - uma das responsáveis pelo desenvolvimento da iniciativa.

ABAIXO-ASSINADO
Ao tomarem conhecimento do fato, os estudantes decidiram promover um abaixo-assinado, solicitanto a troca do nome da avenida. Mais de 300 assinaturas foram recolhidas e juntadas a um documento, que foi entregue na manhã desta quinta-feira (9), diretamente ao presidente da Câmara Municipal.

No texto, os alunos destacam o Art. 1º da Lei Federal 12.781/2013, que diz que: "É proibido, em todo o território nacional, atribuir nome de pessoa viva ou que tenha se notabilizado pela defesa ou exploração de mão de obra escrava, em qualquer modalidade, a bem público, de qualquer natureza, pertencente à União ou às pessoas jurídicas da administração indireta".

Uma das alunas presentes ao encontro ainda mencionou que, em Santos, foi iniciado um projeto que coloca nas placas dos logradouros, além do respectivo nome, o histórico do homenageado(a) ou o motivo da homenagem. "Já pensou colocar: Av. Leomil, feitor de escravos?", chamou atenção, a fim de reforçar a argumentação da turma.

COMPROMISSO
O presidente da Câmara, por sua vez, se comprometeu a discutir com os vereadores a reivindicação feita pelos estudantes. "Considero justo o pedido, mas temos que observar a Lei Orgânica Municipal, que prevê alguns trâmites para a mudança de nome de logradouro", ponderou ele, que elogiou a iniciativa dos alunos e, principalmente, o trabalho desenvolvido pela equipe educacional da EM Myriam Terezinha. "É bonito ver crianças lutando por cidadania e justiça. Racismo é crime e devemos combate-lo sempre", afirmou Edilson Dias.

Também participaram do encontro o vereador Rafael Vitiello; a orientadora pedagógica Glaucia Maria Santos Souza; e a orientadora educacional Silvana Pagetti.

SAIBA MAIS
Valêncio Teixeira Leomil era possuidor de extensa área localizada entre a praia do Perequê e o Canal de Bertioga, sobre a qual se apropriou. Em 1890, ele solicitou à Câmara de Santos os direitos de uso sobre largas áreas da ilha e concessão por uma ligação férrea a ser construída entre o estuário e a sua propriedade. Dois anos depois, em 1892, Valêncio Leomil vendeu seus direitos de uso aos empresários paulistanos Elias Chaves e Elias Pacheco, que por sua vez fundaram a Companhia Balneária da Ilha de Santo Amaro.

PARÓDIA
Inspirados nas descobertas feitas através do projeto 'Se Essa Rua Fosse Minha', os alunos da EM Myriam Terezinha ainda fizeram uma paródia da cantiga popular que leva o mesmo nome. Abaixo segue a adaptação:

“Se essa rua, se essa rua fosse minha/ eu mandava, eu mandava o nome trocar/ para o dia 20 de novembro/ pois Leomil não fez bem para o nosso Guarujá/ Essa rua, essa rua tem uma história/ que se chama, que se chama escravidão/Dentro dela, dentro dela tem um homem, que traficava pessoas e era uma multidão...”


Publicado em: 09 de novembro de 2017

Publicado por: ASSESSORIA

Cadastre-se e receba notícias em seu email